
Na semana passada, o grande mestre Hélio Gracie nos deixou aos 95 anos de idade. Como praticante de jiu-jitsu Gracie há cinco anos, não poderia de postar em sua homenagem. Apesar de ser um exímio lutador e grande percursor do brazilian jiu jitsu, Hélio Gracie era totalmente contra a violência fora dos ringues e tatames e defendia a disciplina do esporte e uma dieta equilibrada no cotidiano.
Tudo começou na década de vinte do século passado, quando seu irmão, Carlos Gracie, aprendeu as técnicas do jiu jistsu trazidas pelo lutador japonês Mitsuyo Maeda. Vários familiares de Carlos iniciaram a prática da arte marcial, porem Hélio por seu físico franzino e frágil foi proibido de praticar a luta.
Observador, Hélio passou a acompanhar, dos seus treze aos dezesseis anos, as aulas dadas por Carlos. Aprendeu todas as técnicas e ensinamentos de seu irmão apenas olhando, mas, para compensar seu biotipo, Hélio aprimorou a parte de solo tradicional, através do uso do dispositivo de alavanca, dando-lhe a força extra que não possuía, criando assim o Brazilian Jiu-Jitsu. Acabou por aprender sozinho os movimentos de combate, até que um dia Carlos se atrasou e Hélio acabou dando a aula em seu lugar. Os alunos gostaram tanto que alguns pediram a Carlos que se possível passassem a ter aulas somente com Hélio. Hélio Gracie então virou professor. Para mostrar a eficácia da técnica, Hélio desafiava lutadores de outras artes marciais, o que foi considerando as primeiras lutas de vale tudo.
O jiu jistsu original nasceu na India, época de Buda. Os monges budistas viajavam muito e eram saqueados. Para evitar isto, eles inventaram uma forma de defesa dai nasceu o jiu-jitsu. Jiu-jitsu ao pé da letra significa “arte suave” e tem três princípios básicos: a técnica, a alavanca e a base. Depois da Índia foi para a China e posteriormente para o Japão. No Japão, deu um grande salto, tornou-se conhecido como é hoje em dia, e se inventou o kimono.
Mensagem de Hélio Gracie: “O Jiu-Jitsu que criei foi para dar chance aos mais fracos enfrentarem os mais pesados e fortes. Sempre fui um garoto normal, só tinha um defeito: era brigador. Pelo menos até tomar duas boas lições da vida. Lembro-me da primeira como se fosse hoje. Eu andava pelas ruas ainda molequinho, antes de conhecer o Jiu-Jitsu. Tinha uns 35kg, mas dizia pra qualquer um: “O que tá me olhando?”. Pois um dia um amigo chamado Gugu me disse: “Caxinha [o apelido de Mestre Helio era Caxinguelê], tem um tal de Benigno aí querendo me dar porrada”. Para defender o Gugu, fui brigar com o sujeito sem nem saber quem era. Perguntei ao cara: “Você quer bater no Gugu?”, e dei logo um soco na cara dele. Levei 20 depois. Fiquei com a cara toda inchada. Me perguntavam o que havia acontecido com o meu rosto. Eu dizia que tinha brigado com o Benigno. Respondiam: “Benigno nada, esse cara é maligno, te deu uma surra!” [Risos]. No fim das contas, concluí que foi uma surra merecida. Primeira lição: não ser injusto, não brigar sem motivo.
Bem, anos depois eu estava num ônibus, indo para a praia de Copacabana, e tinha um rapagão sério e forte, olhando na minha direção. Eu me aproximei dele e disse: “Tá me olhando por quê? Tá pensando que sou veado?”. Mas o cara estava completamente alheio, nem prestava atenção em mim. Ele baixou a vista e disse: “Vá se embora, menino”. Foi de um desprezo tão grande que eu nunca mais perturbei ninguém. Logo depois conheci o Jiu-Jitsu e nunca mais briguei na rua. O sujeito briga na rua porque não acredita em si mesmo, quer afrontar as pessoas para provar alguma coisa. Mas depois que aprende Jiu-Jitsu, ele se fortalece de uma forma que passa a tratar brigas de rua com o mesmo desprezo que aquele cara do ônibus tinha por mim.