
No dia dos pais fui assistir Hamlet. A famosa peça de William Shakespeare, escrita na virada do século XVI, conta a história do filho, Príncipe Hamlet, arrasado pelo assassinato do pai, Rei Hamlet. Se isso não bastasse para apimnetar a trama, o pai do príncipe foi morto pelo seu próprio tio, Cláudio, irmão do rei, com o intuito de se apoderar do trono.
Em cima da peça, que já teve diversas montagens e estudos teóricos, há a exposição das diferentes individualidades existentes e do universo das paixões humanas, como o maquiaevélico Rei Cláudio, que pelo anseio do poder articula a morte do próprio irmão – atitude que podemos trazer para atualidade, onde muitos se utilizam de todos os meios e artifícios para deter o poder. Entretanto, temos a sincera e profunda amizade de Horácio e Hamlet, sem interesses, que desenrola até a última cena da tragédia.
No decorrer da peça, após testemunhar o fantasma do pai (este aparece com uma armadura de guerra e dá indícios da arapuca tramada por Cláudio), Hamlet se vê incumbido por um desejo de vingança. E neste ambiente, de angústia, de tormenta e sofrimento causado pela morte do pai, o príncipe passa a se indagar sobre suas atribuições, sobre os destinos, sobre a vida, sobre a morte...: “Ser ou Não Ser, eis a questão”.
Hamlet passa então a “quebrar a cabeça” para arquitetar a vingança da morte do pai, já que seu universo estimado é o do intelecto e não o da vingança bruta e sem sentido – Para isso, abdica de sua paixão pela bela Ofélia, filha de Polônio (conselheiro do Rei Cláudio).
Neste cenário, Hamlet cria uma peça teatral no castelo de Elsinore, na qual há o assassinato de um rei e os caminhos infiéis da rainha (como aconteceu com a sua própria mãe, a Rainha Gertrudes, cuja qual se casou logo depois com o irmão do Rei Hamlet). Por meio da peça, o astucioso príncipe espera criar um desconforto no seu tio e o novo rei Cláudio e transparecer a verdade a todos – o que de fato acontece.
Apesar de não ser um profundo conhecedor das obras shakesperiana, nesta nova roupagem, assinada por Aderbal Freire-Filho, Barbara Harrington e Wagner Moura, não há espaço ao coloquial em substituição da poesia, mas sim um equilíbrio, um casamento perfeito, das falas peculiares da peça com uma menção contemporânea e de comunicação direta, como afirmou Wagner Moura.
“Nossa intenção não foi 'coloquializar' o texto, a poesia está toda lá, mas é uma poesia da simplicidade, como no original. É um texto para ser falado, mais do que lido; com Shakespeare também foi assim, ele escreveu primeiro para o teatro, depois tornou-se um cânone literário", diz WM.
Wagner Moura interpreta com maestria o príncipe Hamlet. O Hamlet de Moura, ao contrário de muitos outros apresentados, não se caracteriza somente como o personagem melancólico e tristonho, comum de se ver, mas sim um personagem com um sarcasmo, uma ironia, uma inteligência encantadora. Destaque para suas encenações de loucura na frente da corte (a fim de camuflar o seu conhecimento do assassinato) e de sua veemência e liderança na frente dos amigos do reino e dos atores teatrais.
Num cenário estilo arena (onde todos os personagens assistem as encenações da peça), há a utilização de uma câmera, que Horácio, amigo incondicional de Hamlet, quase sempre manipula - o uso do equipamento não só traz um contemporaniedade para a peça, mas é extremamente adequado. Com o equipamento, é possível, por meio de um telão, notar o semblante dos personagens, principalmente do falastrão rei Cláudio, que dá indícios emocionais de sua culpa no assassinato do rei Hamlet.
Destaque para o Rei Cláudio, vivido por Tonico Pereira. O ator mostra o cinismo e arrogância do rei com sua voz e seu cativante jeito de falar, rouco e alongado.. Horácio, interpretado por Caio Junqueira, também aparece muito bem.
O figurino leve e casual do elenco permite uma encenação ágil, de boa qualidade também é a trilha sonora organizada por Rodrigo Amarante (ex-integrante do Los Hermanos).

